Crente sou nos Deuses
mas
Descrente sou
mais do que nunca
nos Homens
e na vil Religião Humana.
Crente sou nos Deuses
mas
Descrente sou
mais do que nunca
nos Homens
e na vil Religião Humana.
Sou um verso
Disparado por brancos e negros
na estrofe da vida.
Sou uma esperança chegada.
Sou uma promessa adiada.
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa,
Quando carrego no “d”
Alguns doutos ignorantes
Riem-se da inovação
Quando mastigo um “r”
Lá vem a correcção dos
Supostos eruditos
Quando me pronuncio
Moçambicanamente
Alguém expressa
Um sorriso estridente
Quase incontínuo
Deixem-me dar o grito
Que não é do Ipiranga
Mas que o é.
- Caramba!
Escrevo o país de mim
Falo o povo de mim
Falo o espaço que é meu
Canto o canto que é meu.
Ninguém compreende
Minha singularidade
Talvez Camões
Compreendesse
E eu danço nela.
Delmar Maia Gonçalves
Aos povos de Moçambique.
não há pretos nem brancos
há Moçambicanos.
Na minha pátria
não há mestiços
há Moçambicanos.
Na minha pátria
não há monhés
há Moçambicanos.
E Moçambicano
é aquele que
sente o pulsar da
pátria,
Moçambicano
é aquele que a vive.
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa,
Com os
nossos
não podemos ser nós!
Com os
outros
não somos nós1
Que triste
existência esta
de não podermos
ser nós
e de não sermos nós!
Delmar Maia Gonçalves
Lisboa \ Carnide \ Parede, 12 de Abril de 2006.
Sou o que sou, não o nego,
para os negros sou mulato
ou misto
Para os brancos sou preto ou mulato
E eu sou igual a mim próprio
e resultado do famigerado
jogo de xadrez
de quadrados pretos e brancos,
numa simbiose ímpar.
Sim, sou só comparável
ao tabuleiro de xadrez
de Tenreiro
Enquanto dois intervenientes
disputam um argumento,
eu abstenho-me
calado.
Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 2 de Fevereiro de 1985.
Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu.
Delmar Maia Gonçalves
Parede, 03 de Fevereiro de 1996
Que condição
esta de ser o
que sou...!
Para ser Africano pleno
tenho de admitir ser
o que não sou
Para ser Europeu de corpo
inteiro
tenho de fingir e
procurar ser o que
não sou.
Que dilema este
de ser
o que sou
sendo o que não sou!
Delmar Maia Gonçalves
Parede, 15 de Dezembro de 1996
Somos resultado de uma adição.
Quando subtraímos esquecemo-nos
que antes houve adição.
Não nos podemos dividir mais,
porque somos resultado
da multiplicação
que resulta em humanidade.
Feitas as contas
a adição só enriquece
não empobrece.
Delmar Maia Gonçalves
25-10-96
Parede
A todos os mestiços do mundo
foi para o lado dos negros
e levou um empurrão
com um clamor de vozes:
- Sai daqui seu misto sem bandeira,
sai daqui seu misto sem bandeira!
Com lágrimas vertendo
foi para o lado dos brancos onde ouviu um eco de vozes
clamando: - Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!
Perante tal situação,
Zé Pecado arregaçou as mangas
e desesperado gritou:
- Somos irmãos
negros e brancos
somos irmãos!
Reina desde então
um silêncio suspeito.
Delmar Maia Gonçalves
Maputo/Parede, 09 de Julho de 1987